Tom

Através do vidro engordurado era possível enxergar os primeiros movimentos da cidade. Um a um, carros percorriam o asfalto ainda úmido do sereno. Enquanto observava a cena monótona, Tom repetia as notas suaves da flauta imaginária.

O parapeito da janela causava desconforto, mas nada que o fizesse mudar de posição. Gostava tanto de ficar ali, na fronteira do quarto e dos prédios cinzentos. O gosto amargo ainda não havia ido embora. Esticou o braço esquerdo, o suficiente para alcançar o maço de cigarros, e voltou a observar a rua através da janela. Com cuidado, abriu uma parte da folha de vidro.

O ar gelado da manhã agarrou seu rosto como um golpe. Acendeu o cigarro e arrumou os cabelos bagunçados. Virou o rosto para a cama e piscou, calmamente, enquanto dava a primeira tragada. Os lençóis brancos emolduravam o corpo delicado e quase podiam combinar com a melodia da flauta imaginária. Partes nuas apareciam à mostra como um chamado. Ele levou a mão livre à nuca e tentou lembrar como a garota tinha chegado ali. Olhou ao redor do quarto e se deu conta das três garrafas de vinho barato, jogadas ao lado da cama. Próximas a elas, reconheceu a camisa xadrez, a cueca cinza e o jeans puído. O vestido vermelho de algodão descansava ao lado de delicadas sapatilhas cor de creme.

Tornou a olhar para a garota, que dormia de bruços no colchão de casal. Da janela, não conseguia enxergar seu rosto. Os cabelos castanhos caíam em cascata ao longo das costas desnudas. Levantou-se e atravessou o quarto, pensando na noite. Lembranças de algumas risadas, beijos urgentes e mãos ousadas vinham em flashes. Foi bom. Mas foi apenas isso. O receio de Tom veio à tona na forma de um aperto na boca do estômago, quando sabia que não poderia evitar o contato a seguir.

Diabos, qual era seu nome? Tentou cavar no fundo da memória, enquanto descia da janela e caminhava à minúscula cozinha improvisada. Abriu a geladeira antiga.  O rangido da porta de ferro ecoou pelo apartamento e a garota se mexeu. Tom cerrou os dentes, xingando baixo. Deu outra tragada no cigarro e abriu uma lata de chá preto.

Voltou ao quarto. Ela terminava de abotoar o vestido vermelho, de costas para a cozinha. Ao ouvir Tom chegar, virou-se devagar e sorriu, timidamente. Doce, como você é doce. E se…, pensava. Eram os mesmos olhos que dançavam com ele em todos os sonhos. Todas as noites. A expressão séria de Tom era como uma máscara. Escondia o coração frágil e amedrontado. Petrificava o desejo de abraçar aquele corpo delicado, segurar o rosto sonhador nas mãos. Fazia-o engolir a ternura pela garota cujo nome sequer lembrava. O gosto amargo continuava lá. Denso, pastoso. Em vez de retribuir o sorriso, anunciou, friamente, que o café acabara. Andou até a janela, acendeu outro cigarro e falou, com voz rouca: “A porta está aberta.” A flauta cessou.

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