A sombra de um olhar

A sombra de um olhar

Pela janela do carro observo a paisagem como um risco. O céu ilustra com manchas coloridas os últimos sussurros do dia. Queria que você estivesse aqui pra ver. Acho que iria gostar. Faz dias que encaro a estrada tentando recolher palavras para escrever uma resposta. Sei que minhas atitudes são injustificáveis; nem eu entendo como as coisas acabaram assim, acho que simplesmente acabaram.

Como em um disco riscado fico lembrando repetidamente dos seus olhos tristes. Olhos que clamavam por regaste. Olhos que eu não pude salvar. Li em algum lugar que meu nome quer dizer ‘‘luminoso’’. Lembrei da vez que você disse que eu parecia o sol quando sorria. Deve ser isso: eu era o seu sol, mas não consegui te iluminar.

Sempre achei que eu seria um grande homem, como os heróis das histórias infantis. Inocente. A  minha luz só trouxe sombra; escureci a sua vida. Sempre fui um homem de contrastes, você sabe disso. O problema foi não reconhecer que parte de mim era negra. Entenda, eu nasci para ser o bonzinho, de ar inocente e promessas sinceras. Nunca me disseram que dentro de mim também existia, o homem que poderia ferir e abandonar.

Entre postos de gasolina e banheiros podres das paradas rodoviárias, arrisco o encontro com minhas partes desconhecidas. Tenho descoberto a gentileza que reside nos estranhos. Há dois dias, me deparei com uma senhora muito distinta que se ofereceu para tirar cartas de tarô. Ela disse que meu futuro poderá ser errante, explosivo e com presença de amor. No final, ela alertou: você precisa confiar nas estrelas. Talvez deva acreditar nela, assim como deveria ter acreditado em você.

Nasci com o dom de enxergar a alma das pessoas. É minha benção e maldição. Em meio  a lucidez de prazeres e medos de outros, perdi a identidade dos meus sentimentos. Carrego no peito mágoas que não são minhas. Me apaixonei pela sua alma. Amei os seus desejos e pensamentos. A sua dor me embriagava.

As vezes quando ligo o rádio e as músicas despertam minha memória, sinto minhas lágrimas. Queria que você pudesse me ver chorando. Sempre fui duro na sua frente. Mesmo no último momento, era você que implorava, sem palavras, para que eu ficasse.

Mirando o crepúsculo solitário, me orgulho dos nossos sonhos. Construímos nosso paraíso e por um período de uma dança perfeita, fomos felizes. Errei em querer te salvar quando na verdade eu precisava ser salvo. Você devia ter usado suas asas para voar em direção a liberdade. Não ouviu o conselho dos sábios. Preferiu se aproximar do sol.

Anúncios

As tatuadas fazem melhor

Arrumara-se toda para um evento importante. Passara o perfume novo, escolhera a camisa perfeita. Só não dispensara atenção aos cabelos. Limpos, mas rebeldes. De resto, estava pronta. O evento foi um sucesso e, na volta para casa, percebeu que o caminho que faria passaria por lá. Por ele. Não resistiu e desacelerou enquanto se aproximava do portão quase abandonado.

Era noite, a rua estava pouco movimentada e ela pode ver o carro estacionado. Parou. Só precisava descer, só precisava dar um toque e depois… Bem, quem se importa? “É preciso viver o momento!” Respirou fundo, olhou a placa, rindo, divertida, e acelerou. Virou à primeira direita sem nem dar sinal.