O Convite

O Convite

Passos arrancam pequenos gritos do chão forrado com galhos secos. Uma figura alta e esguia se aproxima entre as sombras de árvores anciãs. Sob a penumbra, a atmosfera de medo se alastra. A face oferece um semblante severo; das mãos escorrem filetes de sangue misturados com terra. O caminhar cessa. Silêncio. Ele o encara com feições mórbidas esboçando um sorriso. Em um movimento delicado, leva aos lábios os dedos sujos, degusta o liquido rubro e estende a mão na direção do semelhante. Olhos fixos nos olhos. O convite está feito.

Tremores. Em um sobressalto, levantou da cama. De novo, a mesma imagem: o sangue, o sorriso. Por um momento tentou afastar os fragmentos. Mirou a janela, podia ver manchas cor de chumbo em contraste no céu. ‘‘Vai chover’’, pensou. Respirou fundo e cobiçou um pouco de coragem.

Caminhou até o banheiro e enfrentou o espelho. Podia ver o corpo forte e altura desenvolvida. Sua face tinha linhas precisas, matemáticas. Um queixo equilátero alinhado a um nariz de ângulo reto.  Os cabelos eram negros e formavam pequenas espirais. De longe, viu que seus amigos ainda dormiam. Era o terceiro dia de viagem pelas montanhas e era provável que ficassem na pousada por causa do mau tempo.

Desceu as escadas até o refeitório. Tomou um gole rápido de café, vestiu o casaco e saiu. Estava frio e o vento impunha a sua supremacia sobre as árvores. Adorava a sensação do início de uma tempestade. Caminhou um pouco mais a frente e ascendeu um cigarro. Sentou-se sob as raízes de uma árvore enorme e curtiu os primeiros flashes disparados no horizonte. Não tinha medo do trovão.

Solitário, podia sentir mais uma vez o amargo gosto do vazio. Achava que ali, no meio da mata, ele não o encontraria. Ilusão. O sentimento era um companheiro fiel, estava presente em todos os lugares. Já estava cansado de não sentir. Lamentos. Também estava cansado de lamentar.

Diante de um pequeno bosque, próximo as dependências da pousada, sentiu o chamado. Não sabia de onde vinha, mas deixou se guiar pelo desejo. Começou a andar. Costurando as árvores, adentrou cada vez mais o bosque. Quando percebeu estava correndo, gritava para os antigos espíritos da floresta e abria os braços para os primeiros pingos de chuva. Sentiu-se zonzo e tropeçou enquanto as cores o rodeavam.

No chão, com a consciência agarrada, começou a se odiar. O que estava fazendo? Percebeu que estava perdido, gritou e ouviu em resposta uma voz assustadora: Me ajudem aqui! Aqui, aqui… O desespero espalhava como um vírus. Corria em meios as árvores e não via nenhuma diferença. Todas as direções eram iguais.

A chuva parou. Por um momento, recuperou as esperanças. Tentou agir logicamente, se posicionando pelo sol, mas as nuvens eram implacáveis. O frio atrofiava seus músculos, aumentava seu pavor. As pernas tremiam de exaustão.

Próximo a uma clareira, encontrou um pequeno lago.  Decidiu que seria melhor esperar até que alguém o encontrasse. Debruçou-se para beber um pouco de água e encarou a própria imagem. Reconheceu os olhos refletidos, não eram os mesmos que vira de manhã. O rosto duro e o semblante macabro estavam ali. Desejou fugir, mas algo o deteve.  Mirou as mãos que agora estavam sujas de terra e sangue. Arriscou contemplar o reflexo pela última vez. Um sorriso perverso se desenhou. O convite fora aceito.