Dos acontecimentos de Natal

conto

Se fosse possível escolher uma palavra que definisse seu estado de espírito, esta seria leveza. Sim, pois tudo era leve na mente e no coração dela, e não havia nada – pelo menos não nas próximas três horas, já que a melhor realização do ano estava para acontecer – que pudesse alterar o esboço de um sorriso ansioso e olhos sonhadores. A leveza carregava os pensamentos em pluma e transformava os medos e preocupações em bolhas impermeáveis. Sentou-se na penteadeira de vidro próxima à janela do quarto, inspirando o ar fresco do fim de tarde. Fizera sol o dia todo, mas as folhas das árvores continuavam com camadas espessas de neve. Abriu a gaveta do meio, levantou os livros e objetos um tanto empoeirados (alguns chaveiros velhos, canetas que pararam de funcionar há tempos e papeis de bombom amassados), e pegou a carta escondida. Sorriu.

***

A bola de meia quase tocava o teto e voltava à mão direita, pronta para novo arremesso, pela 44º vez. Deitado na cama estreita desarrumada com lençóis e cobertores de lã, ele tentava se concentrar nas lembranças da tarde anterior. Não agira por impulso, pelo contrário. Durante semanas ensaiara as primeiras frases rabiscadas na folha de caderno até que, enfim, terminara de escrever o convite e o deixara num envelope, camuflado com as correspondências do quintal da casa dela. Levantou-se num salto e pegou o violão. Já estava afinado, mas mesmo assim dedilhou algumas notas – as notas compostas para ela – e sorriu.

(continua)

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