Virgínia

hands

Quando não se tem mais quase nada, o pouco que se tem é suficiente para prender as últimas memórias ao corpo desgastado pelo tempo, pelas dores. Pelos amores. Virgínia repetiu a frase em voz baixa, num sussurro a si mesma. Vinha pensando na vida em cada uma das últimas três horas em que passara caminhando pelo calçadão sujo de areia, na orla da praia. Era noite, fazia calor e Virgínia tremia de viver. Sim, havia alguns anos – dois, especificamente –, o tremor começara nas extremidades; mãos e pés. Qualquer estranho que a visse de longe poderia pensar que ela batucava alguma música imaginária, tão suave e ritmado era o chacoalhar dos dedos longos e enrugados.

Caminhara durante três horas. Em qualquer lugar que não fosse a praia, isto seria impossível. Joelhos inflamados, joanetes latejantes e artroses em diversos pontos da coluna teriam obrigado a senhorinha a se comportar numa cadeira – de balanço, se ela assim o quisesse.

Virgínia tremia de viver. Pessoas, sons e cores resolveram voltar à sua memória sem pedir licença. Por que agora? Ela já tinha se acostumado a viver no vazio. Já tinha se acostumado a viver no silêncio. E, assim, sem mais nem menos, acordara naquele dia de janeiro com flashes ininterruptos. Sentiu o cheiro de batatas gratinadas enquanto ouvia sua mãe, mexendo em panelas e chamando para o almoço. Os dedos das mãos amorteceram assim que ele os tocara e, com o sorriso enviesado que ela conhecia tão bem, colocou um anel, o anel mais lindo que já vira em toda a vida, no dedo anelar esquerdo. As lágrimas fizeram cócegas enquanto caíam dos olhos grandes e verdes de Virgínia. Depois, pode escutar o barulho de passinhos urgentes e incertos, acompanhados de sua risada mais pura. As mãozinhas rechonchudas apertavam-na as pernas, enquanto o menino lhe contava sobre o último sonho que tivera. Virgínia acordara tremendo. Demorou a perceber as lembranças, demorou a aceitá-las.

No fim do mar, a lua nascia grande e amarela. Era tão linda, tão misteriosa. Subia devagar e Virgínia não tirou os olhos dela por nem um segundo. Avançou um pouco até que a água quente envolvesse seus pés num jogo de esconde. Sentou. Quando não se tem mais quase nada, o pouco que se tem é suficiente. Agora a lua estava mais alta e parecia ainda maior. As mãos e pés tremiam pouco, quase nada. Deitou e respirou o ar salgado da noite, enquanto admirava cada uma das estrelas. Virgínia não tremia mais. Fechou os olhos e sorriu.

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