Paula

Acordei com o cheiro do teu suor em mim. Não sei bem como é que vim parar aqui, neste quarto engordurado onde se ouve ao longe o barulho de caminhões e buzinas incessantes. Daqui consigo sentir cheiro de café e pão assado. Em mim, o cheiro do teu suor. Você levantou cedinho e achou que eu dormia. Não. Estava atenta a cada movimento teu na cama – quando levantou do colchão, quando passou por mim sem fazer barulho (exceto por um rangido no assoalho deste quarto engordurado). Foi até o banheiro, ligou o chuveiro e encostou a porta, pensando que eu não fosse acordar. Você sabe que eu tenho sono pesado, já te disse mil vezes. Só não sabe que mal durmo quando estou ao teu lado. Isso, esfrega. Ensaboa esse corpo e tira de você todo o meu cheiro até que não sobre nada, nem uma gota do meu suor na tua pele. Eu não: vou passar o dia todo sem tomar banho porque quero que o teu cheiro fique impregnado em mim. Quero que ele grude e não saia nem que eu esfregue a pele até arranhar. Vem, pode sair do banheiro, porque ainda estou dormindo e não vou me mexer até que você saia sem me tocar. Sem nenhum bilhete, sem meu cheiro em você. Porque eu vou fingir que não sei que daqui a algumas horas você vai estar com o cheiro de outra encalacrado nas tuas dobras, no teu cabelo, nos teus pelos. Porque você nem desconfia que ontem mesmo eu senti um cheiro no teu pescoço que não era meu. Vai, pode ir. Porque eu sei que você vai voltar assim que o meu corpo começar a esquecer do cheiro do teu suor em mim.

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