Paula

Acordei com o cheiro do teu suor em mim. Não sei bem como é que vim parar aqui, neste quarto engordurado onde se ouve ao longe o barulho de caminhões e buzinas incessantes. Daqui consigo sentir cheiro de café e pão assado. Em mim, o cheiro do teu suor. Você levantou cedinho e achou que eu dormia mas não, estava atenta a cada movimento teu na cama, quando passou por mim sem fazer barulho, exceto por um rangido no assoalho deste quarto engordurado. Foi até o banheiro, ligou o chuveiro e encostou a porta, pensando que eu não fosse acordar. Você sabe que eu tenho sono pesado. Não sabe que mal durmo quando estou do teu lado. Isso, esfrega. Ensaboa esse corpo e tira de você todo o meu cheiro até que não sobre nada, nem uma gota do meu suor na tua pele. Eu vou passar o dia todo sem tomar banho porque quero que o teu cheiro fique impregnado em mim, quero que ele grude e não saia nem que eu esfregue a pele até arranhar. Vem, pode sair do banheiro porque eu ainda estou dormindo e não vou me mexer até que você saia sem me tocar, sem nenhum bilhete, sem meu cheiro em você. Porque eu vou fingir que não sei que daqui a algumas horas você vai estar com o cheiro de outra encalacrado nas tuas dobras, no teu cabelo, nos teus pelos. Porque você nem desconfia que eu senti um cheiro no teu pescoço que não era meu. Pode ir. Porque eu sei que você vai voltar quando meu corpo começar a esquecer do teu suor.

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Virgínia

hands

Quando não se tem mais quase nada, o pouco que se tem é suficiente para prender as últimas memórias ao corpo desgastado pelo tempo, pelas dores. Pelos amores. Virgínia repetiu a frase em voz baixa, num sussurro a si mesma. Vinha pensando na vida em cada uma das últimas três horas em que passara caminhando pelo calçadão sujo de areia, na orla da praia. Era noite, fazia calor e Virgínia tremia de viver. Sim, havia alguns anos – dois, especificamente –, o tremor começara nas extremidades; mãos e pés. Qualquer estranho que a visse de longe poderia pensar que ela batucava alguma música imaginária, tão suave e ritmado era o chacoalhar dos dedos longos e enrugados.

Caminhara durante três horas. Em qualquer lugar que não fosse a praia, isto seria impossível. Joelhos inflamados, joanetes latejantes e artroses em diversos pontos da coluna teriam obrigado a senhorinha a se comportar numa cadeira – de balanço, se ela assim o quisesse.

Virgínia tremia de viver. Pessoas, sons e cores resolveram voltar à sua memória sem pedir licença. Por que agora? Ela já tinha se acostumado a viver no vazio. Já tinha se acostumado a viver no silêncio. E, assim, sem mais nem menos, acordara naquele dia de janeiro com flashes ininterruptos. Sentiu o cheiro de batatas gratinadas enquanto ouvia sua mãe, mexendo em panelas e chamando para o almoço. Os dedos das mãos amorteceram assim que ele os tocara e, com o sorriso enviesado que ela conhecia tão bem, colocou um anel, o anel mais lindo que já vira em toda a vida, no dedo anelar esquerdo. As lágrimas fizeram cócegas enquanto caíam dos olhos grandes e verdes de Virgínia. Depois, pode escutar o barulho de passinhos urgentes e incertos, acompanhados de sua risada mais pura. As mãozinhas rechonchudas apertavam-na as pernas, enquanto o menino lhe contava sobre o último sonho que tivera. Virgínia acordara tremendo. Demorou a perceber as lembranças, demorou a aceitá-las.

No fim do mar, a lua nascia grande e amarela. Era tão linda, tão misteriosa. Subia devagar e Virgínia não tirou os olhos dela por nem um segundo. Avançou um pouco até que a água quente envolvesse seus pés num jogo de esconde. Sentou. Quando não se tem mais quase nada, o pouco que se tem é suficiente. Agora a lua estava mais alta e parecia ainda maior. As mãos e pés tremiam pouco, quase nada. Deitou e respirou o ar salgado da noite, enquanto admirava cada uma das estrelas. Virgínia não tremia mais. Fechou os olhos e sorriu.

Dos acontecimentos de Natal

conto

Se fosse possível escolher uma palavra que definisse seu estado de espírito, esta seria leveza. Sim, pois tudo era leve na mente e no coração dela, e não havia nada – pelo menos não nas próximas três horas, já que a melhor realização do ano estava para acontecer – que pudesse alterar o esboço de um sorriso ansioso e olhos sonhadores. A leveza carregava os pensamentos em pluma e transformava os medos e preocupações em bolhas impermeáveis. Sentou-se na penteadeira de vidro próxima à janela do quarto, inspirando o ar fresco do fim de tarde. Fizera sol o dia todo, mas as folhas das árvores continuavam com camadas espessas de neve. Abriu a gaveta do meio, levantou os livros e objetos um tanto empoeirados (alguns chaveiros velhos, canetas que pararam de funcionar há tempos e papeis de bombom amassados), e pegou a carta escondida. Sorriu.

***

A bola de meia quase tocava o teto e voltava à mão direita, pronta para novo arremesso, pela 44º vez. Deitado na cama estreita desarrumada com lençóis e cobertores de lã, ele tentava se concentrar nas lembranças da tarde anterior. Não agira por impulso, pelo contrário. Durante semanas ensaiara as primeiras frases rabiscadas na folha de caderno até que, enfim, terminara de escrever o convite e o deixara num envelope, camuflado com as correspondências do quintal da casa dela. Levantou-se num salto e pegou o violão. Já estava afinado, mas mesmo assim dedilhou algumas notas – as notas compostas para ela – e sorriu.

(continua)

Música velha

Escutei nossa música de novo. Agora mesmo. Fazia mais de um ano que os versos melódicos nem passavam pela minha cabeça, coisa que antes era automática. Bastava acordar que as palavras doces dançavam para mim, para nós. Engraçado mesmo foi eu ter me dado conta da falta de falta que a falta da música fez. Lembrei por acaso e a coloquei a tocar, para ver quais sensações despertariam e, com um tanto de surpresa e um pouco de descaso, não é que não senti nada? Nada, nadinha. Nem mesmo quando chegou o refrão, em que me sentia tão perto de você. Esqueci como é ter tuas mãos entrelaçadas nas minhas, brincando com as dobrinhas da pele. Tentei de novo. Apertei o play e prestei um pouco mais de atenção. A letra veio naturalmente.  Alguns errinhos, mas o principal estava lá, escondido em alguma gaveta empoeirada do coração. “I swear I won’t forget you/Oh If my voice could reach back through the past/I’d whisper in your ear/Oh darling I wish you were here”. Não vou te esquecer e não quero que você me esqueça. Mas será que ainda consegue nos ouvir nos versos da melodia? Eu não.

Antes que eu esqueça

met you

Voltei ao lugar em que você esteve comigo. Lembra da noite estrelada, do ar fresco de primavera e da atmosfera inebriante que nos envolvia em aura?

Olho para o mesmo ambiente e procuro algum sinal. A intenção é me prender às lembranças e impedir que a sensação do teu olhar sobre mim vá embora. A luz fraca é a mesma. Copos cheios. Copos vazios. Gente que nem conhece a gente. Eu. Você não está aqui.

 

As tatuadas fazem melhor

Arrumara-se toda para um evento importante. Passara o perfume novo, escolhera a camisa perfeita. Só não dispensara atenção aos cabelos. Limpos, mas rebeldes. De resto, estava pronta. O evento foi um sucesso e, na volta para casa, percebeu que o caminho que faria passaria por lá. Por ele. Não resistiu e desacelerou enquanto se aproximava do portão quase abandonado.

Era noite, a rua estava pouco movimentada e ela pode ver o carro estacionado. Parou. Só precisava descer, só precisava dar um toque e depois… Bem, quem se importa? “É preciso viver o momento!” Respirou fundo, olhou a placa, rindo, divertida, e acelerou. Virou à primeira direita sem nem dar sinal.

Você

Quero você. A aura de mistério que te envolve me faz quase ir além. Algo me faz sentir flutuando quando está perto. Acho que o não saber torna a experiência mais surreal. Ou talvez seja normal demais, cotidiano demais. Sabe, perdi a conta das vezes em que me impedi, quase no último instante, de tocar qualquer parte do teu corpo. Enumerar qualidades ou descrever as sensações que você me causa soa adolescentemente bobo, talvez até infantil. Mas existe outro jeito de confessar que…?

Não entendo você. Tento juntar as peças que correspondem às vezes em que percebi a recíproca de um sentimento. São poucas. Os sorrisos não contam; foram, quase sempre, reflexos de bondade e gentileza amiga. Quem sabe houve alguns olhares, de soslaio, timidez, ou, na última das hipóteses, tentativas de mostrar que sim, você também sente. Não consigo pensar em algo para dizer além de…

Sonhei com você. Não lembro onde estávamos, com quem estávamos. Mas sonhos são assim, não? Lembro apenas de me perder brincando com o jeito como falava, como sorria com os olhos. O céu estava negro e infinito quando você me tocou e logo levantou, foi embora. Acordei. Acho que aconteceu… Amo você.

você

A dança da chuva

As gotas de chuva formam sons diferentes à medida que caem no chão de ladrilho. Posso sentir o cheiro da madeira úmida da janela quando o vento faz a persiana de bambu balançar. Por um momento, fecho os olhos e inspiro o frescor. É tão bom.  Você está em frente a mim, dançando com os braços abertos e sorrindo. Teus olhos são tão lindos, sabia? Não se preocupe, nunca deixarei de te lembrar.

Em algum ponto do lado de fora de minha janela, gostas caem num ritmo constante. Como quando a gente estala a língua sem parar. É diferente do barulho que fazem quando batem no asfalto. A mistura de sons forma uma música engraçada. Você ia se irritar um pouco, sei bem o quanto odeia ritmos contínuos. Mas… Sinta. Feche os olhos e ouça o que a chuva tem a te dizer. Como num sussurro, ela conta um segredo. O vento suave agrada meu rosto mais uma vez. Agora estamos deitados na grama, cada um para um lado, as cabeças encostadas. Foi naquele dia que viajamos sem contar para ninguém. Estou rindo de uma história engraçada que você me contou. Droga, queria lembrar o que foi. Eu adorava ouvir suas histórias.

Tom

Através do vidro engordurado era possível enxergar os primeiros movimentos da cidade. Um a um, carros percorriam o asfalto ainda úmido do sereno. Enquanto observava a cena monótona, Tom repetia as notas suaves da flauta imaginária.

O parapeito da janela causava desconforto, mas nada que o fizesse mudar de posição. Gostava tanto de ficar ali, na fronteira do quarto e dos prédios cinzentos. O gosto amargo ainda não havia ido embora. Esticou o braço esquerdo, o suficiente para alcançar o maço de cigarros, e voltou a observar a rua através da janela. Com cuidado, abriu uma parte da folha de vidro.

O ar gelado da manhã agarrou seu rosto como um golpe. Acendeu o cigarro e arrumou os cabelos bagunçados. Virou o rosto para a cama e piscou, calmamente, enquanto dava a primeira tragada. Os lençóis brancos emolduravam o corpo delicado e quase podiam combinar com a melodia da flauta imaginária. Partes nuas apareciam à mostra como um chamado. Ele levou a mão livre à nuca e tentou lembrar como a garota tinha chegado ali. Olhou ao redor do quarto e se deu conta das três garrafas de vinho barato, jogadas ao lado da cama. Próximas a elas, reconheceu a camisa xadrez, a cueca cinza e o jeans puído. O vestido vermelho de algodão descansava ao lado de delicadas sapatilhas cor de creme.

Tornou a olhar para a garota, que dormia de bruços no colchão de casal. Da janela, não conseguia enxergar seu rosto. Os cabelos castanhos caíam em cascata ao longo das costas desnudas. Levantou-se e atravessou o quarto, pensando na noite. Lembranças de algumas risadas, beijos urgentes e mãos ousadas vinham em flashes. Foi bom. Mas foi apenas isso. O receio de Tom veio à tona na forma de um aperto na boca do estômago, quando sabia que não poderia evitar o contato a seguir.

Diabos, qual era seu nome? Tentou cavar no fundo da memória, enquanto descia da janela e caminhava à minúscula cozinha improvisada. Abriu a geladeira antiga.  O rangido da porta de ferro ecoou pelo apartamento e a garota se mexeu. Tom cerrou os dentes, xingando baixo. Deu outra tragada no cigarro e abriu uma lata de chá preto.

Voltou ao quarto. Ela terminava de abotoar o vestido vermelho, de costas para a cozinha. Ao ouvir Tom chegar, virou-se devagar e sorriu, timidamente. Doce, como você é doce. E se…, pensava. Eram os mesmos olhos que dançavam com ele em todos os sonhos. Todas as noites. A expressão séria de Tom era como uma máscara. Escondia o coração frágil e amedrontado. Petrificava o desejo de abraçar aquele corpo delicado, segurar o rosto sonhador nas mãos. Fazia-o engolir a ternura pela garota cujo nome sequer lembrava. O gosto amargo continuava lá. Denso, pastoso. Em vez de retribuir o sorriso, anunciou, friamente, que o café acabara. Andou até a janela, acendeu outro cigarro e falou, com voz rouca: “A porta está aberta.” A flauta cessou.