Você

Quero você. A aura de mistério que te envolve me faz quase ir além. Algo me faz sentir flutuando quando está perto. Acho que o não saber torna a experiência mais surreal. Ou talvez seja normal demais, cotidiano demais. Sabe, perdi a conta das vezes em que me impedi, quase no último instante, de tocar qualquer parte do teu corpo. Enumerar qualidades ou descrever as sensações que você me causa soa adolescentemente bobo, talvez até infantil. Mas existe outro jeito de confessar que…?

Não entendo você. Tento juntar as peças que correspondem às vezes em que percebi a recíproca de um sentimento. São poucas. Os sorrisos não contam; foram, quase sempre, reflexos de bondade e gentileza amiga. Quem sabe houve alguns olhares, de soslaio, timidez, ou, na última das hipóteses, tentativas de mostrar que sim, você também sente. Não consigo pensar em algo para dizer além de…

Sonhei com você. Não lembro onde estávamos, com quem estávamos. Mas sonhos são assim, não? Lembro apenas de me perder brincando com o jeito como falava, como sorria com os olhos. O céu estava negro e infinito quando você me tocou e logo levantou, foi embora. Acordei. Acho que aconteceu… Amo você.

você

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A dança da chuva

As gotas de chuva formam sons diferentes à medida que caem no chão de ladrilho. Posso sentir o cheiro da madeira úmida da janela quando o vento faz a persiana de bambu balançar. Por um momento, fecho os olhos e inspiro o frescor. É tão bom.  Você está em frente a mim, dançando com os braços abertos e sorrindo. Teus olhos são tão lindos, sabia? Não se preocupe, nunca deixarei de te lembrar.

Em algum ponto do lado de fora de minha janela, gostas caem num ritmo constante. Como quando a gente estala a língua sem parar. É diferente do barulho que fazem quando batem no asfalto. A mistura de sons forma uma música engraçada. Você ia se irritar um pouco, sei bem o quanto odeia ritmos contínuos. Mas… Sinta. Feche os olhos e ouça o que a chuva tem a te dizer. Como num sussurro, ela conta um segredo. O vento suave agrada meu rosto mais uma vez. Agora estamos deitados na grama, cada um para um lado, as cabeças encostadas. Foi naquele dia que viajamos sem contar para ninguém. Estou rindo de uma história engraçada que você me contou. Droga, queria lembrar o que foi. Eu adorava ouvir suas histórias.

Admiração

A procura espreita meu desejo

Tento capturar o seu olhar, mas não consigo

A atração me convence

Não poso evitar

 

Fico perdido em minhas reações

Seu reconhecimento não faz parte dos meus planos

Só quero te assistir

 

Como uma criança você fica confuso

Porque eu não desejo a sua carne

Nem sua alma ou o seu espírito

 

O seu sorriso é o meu guia

Não te procuro como amante

Medidas me afastam da eternidade

Seu irmão, é o que eu quero ser

Tom

Através do vidro engordurado era possível enxergar os primeiros movimentos da cidade. Um a um, carros percorriam o asfalto ainda úmido do sereno. Enquanto observava a cena monótona, Tom repetia as notas suaves da flauta imaginária.

O parapeito da janela causava desconforto, mas nada que o fizesse mudar de posição. Gostava tanto de ficar ali, na fronteira do quarto e dos prédios cinzentos. O gosto amargo ainda não havia ido embora. Esticou o braço esquerdo, o suficiente para alcançar o maço de cigarros, e voltou a observar a rua através da janela. Com cuidado, abriu uma parte da folha de vidro.

O ar gelado da manhã agarrou seu rosto como um golpe. Acendeu o cigarro e arrumou os cabelos bagunçados. Virou o rosto para a cama e piscou, calmamente, enquanto dava a primeira tragada. Os lençóis brancos emolduravam o corpo delicado e quase podiam combinar com a melodia da flauta imaginária. Partes nuas apareciam à mostra como um chamado. Ele levou a mão livre à nuca e tentou lembrar como a garota tinha chegado ali. Olhou ao redor do quarto e se deu conta das três garrafas de vinho barato, jogadas ao lado da cama. Próximas a elas, reconheceu a camisa xadrez, a cueca cinza e o jeans puído. O vestido vermelho de algodão descansava ao lado de delicadas sapatilhas cor de creme.

Tornou a olhar para a garota, que dormia de bruços no colchão de casal. Da janela, não conseguia enxergar seu rosto. Os cabelos castanhos caíam em cascata ao longo das costas desnudas. Levantou-se e atravessou o quarto, pensando na noite. Lembranças de algumas risadas, beijos urgentes e mãos ousadas vinham em flashes. Foi bom. Mas foi apenas isso. O receio de Tom veio à tona na forma de um aperto na boca do estômago, quando sabia que não poderia evitar o contato a seguir.

Diabos, qual era seu nome? Tentou cavar no fundo da memória, enquanto descia da janela e caminhava à minúscula cozinha improvisada. Abriu a geladeira antiga.  O rangido da porta de ferro ecoou pelo apartamento e a garota se mexeu. Tom cerrou os dentes, xingando baixo. Deu outra tragada no cigarro e abriu uma lata de chá preto.

Voltou ao quarto. Ela terminava de abotoar o vestido vermelho, de costas para a cozinha. Ao ouvir Tom chegar, virou-se devagar e sorriu, timidamente. Doce, como você é doce. E se…, pensava. Eram os mesmos olhos que dançavam com ele em todos os sonhos. Todas as noites. A expressão séria de Tom era como uma máscara. Escondia o coração frágil e amedrontado. Petrificava o desejo de abraçar aquele corpo delicado, segurar o rosto sonhador nas mãos. Fazia-o engolir a ternura pela garota cujo nome sequer lembrava. O gosto amargo continuava lá. Denso, pastoso. Em vez de retribuir o sorriso, anunciou, friamente, que o café acabara. Andou até a janela, acendeu outro cigarro e falou, com voz rouca: “A porta está aberta.” A flauta cessou.